Constatação do óbvio

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Todo mundo devia, pelo menos de vez em quando, limpar o próprio banheiro, nem que fosse pra se lembrar de que é também capaz de fazer umas belas cagadas.

As especiarias orientais

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Minha amiga gosta de me dar presentes estranhos, trazidos de lugares estranhos. Hoje estava lendo um livro -- um presente prosaico, de outra pessoa querida -- a respeito da transmissão, pela herança, por várias gerações, de uma coleção de netsuquês, pequenas pecinhas ou esculturas de madeira ou marfim, esmaltadas, representando figuras animais ou cenas campestres, fabricadas tradicionalmente no Japão. Justamente lia uma passagem sobre a febre em Paris com a arte japonesa, após a abertura para o Ocidente, o gosto artístico dos parisienses buscando o exótico, o luxuoso, o refinado. E de repente pensei nos meus presentes estranhos, um crocodilo de madeira, um gorro, e uma corujinha de pedra-sabão que eu mesmo trouxe da Bolívia e me dei conta de que o estranho, nesses presentes, não era o exótico, o luxuoso, o refinado neles, mas sim, surpresa!, o serem estranhamente familiares. Ficou claro, então, para mim, a razão da sanha ocidental pelas riquezas do Oriente, a seda, a noz moscada, a pimenta-do-reino. Sem sombra de dúvidas a batata peruana fez mais pela culinária centro-europeia que todas as Cruzadas juntas, o que não impediu as expedições às verdadeiras Índias, as Orientais. Havia, sim, um pouco de Cruzada nisso, um pouco de jesuitismo, talvez montado na boleia... a razão principal, entretanto, era o refinamento, que se em Roma já se esgotara (e ainda não tivera o seu renascimento), nunca fôra a herança dos bárbaros europeus de qualquer estirpe, seja visigoda, seja gálica -- talvez eu abrisse alguma exceção, moderada, para os celtas, mas sejamos prudentes, em se tratando de bárbaros. Era preciso buscar o refinamento no Oriente, a razão de tão árduos trabalhos que sofreram os Aquivos e os não-aquivos também. Minha súbita compreensão, porém, se opõe à ideia comum de que era preciso alcançar o distante Oriente para obter os necessários items, afirmando, em seu lugar, que os items perfeitamente supérfluos, porque só se obtinham no distante Oriente, à custa de trabalhos sem conta, passaram à categoria de necessários.

PS.: tanto os netsuquês quanto as especiarias eram items caríssimos, precisamos lembrar. Possuí-los dava status, era sinal de poder e conferia poder. Com o valor de uma tulipa, à sua época, era possível comprar-se uma mansão ou uma propriedade no campo, é o que se conta.

As pessoas surpreendem

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As pessoas surpreendem, sempre digo a mim mesmo. E continuam surpreendendo em não surpreenderem jamais.

A política para o brasileiro

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A política é para o brasileiro como a ciência para o autodidata.

Vontade de máquina

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canalha adj.2g. 1 relativo a ou próprio de pessoa vil, reles. adj.2g,s.2g. 2 que ou aquele que é infame, vil, abjeto; velhaco. s.f. 3 pej. conjunto de pessoas infames, abjetas, desprezíveis. 4 grupo de crianças, criançada (por onde anda a c., a bulha é grande). Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

Lembro de um episódio dos Simpsons, não lembro inteiro, só de uma cena. Os irmãos Lisa e Bart estão brigando muito entre si, e em determinado momento o Bart diz: vou girar os braços e andar na sua direção, se você não sair do caminho, a culpa será sua, estou avisando. Mas a Lisa não gosta nada disso, e diz: eu não vou sair do lugar, e vou ficar dando tapas à frente, se você for pego por um, a culpa será sua, estou avisando.

E ambos cumprem, Bart segue andando girando os braços, Lisa parada com seus tapas no ar, e quando se encontram só ouvimos o barulho alto dos dois se trombando, e corte de cena.

466° aniversário de São Paulo

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Queria dizer "eu bem que avisei".

Mas a rigor eu não avisei. Pelo simples motivo de que, pro bem e pro mal, não podia sequer imaginar.

E nisto está o problema: passamos tempo demais ocupados em distinguir o bem e o mal, quando tudo de que necessitamos é um pouco mais de imaginação.

PS.: quando uma moça faz mais de quarenta anos, todo mundo evita perguntar quantos, exatamente. Mas quando uma senhora quatrocentona faz aniversário, ninguém nem presta mais atenção nos números.
PPS.: é pecado eu não dizer sobre o que é que eu deveria ter avisado? É que não consigo falar, há algumas contas que não fecham, e contagens que não puderam ser feitas. E em certos assuntos, os números são fundamentais.

A vida imita a arte. Ou não é arte?

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Um amigo meu escreve que "só o impensável é impossível". Se for assim, o papel da arte, propriamente, será o de pensar o impossível, para que aconteça. No entanto não é isso, ou não teria sido num livro chamado de novo nada que o Paulo Ferraz escreveria assim.

Pensando direito sobre as cenas de violência doméstica na televisão aberta (aberta quer dizer: sob concessão estatal), descobrimos a maneira correta de avaliar seu alcance, sua mensagem: não pela cena mesma, mas pela seguinte. Por exemplo, uma transexual é espancada pelo próprio filho, depois de contar que, Lucas, eu sou seu pai. A cena seguinte é a mulher chorando, sozinha, enquanto ele, fora de casa, é acolhido pelos amigos, pela família etc., por conta da sua tragédia. Ela fica como punida, portanto, culpada. Ele fica como vítima.

A cena mesma, a violência, não passa de um realismo comum. O realismo engana: ele faz nos concentrarmos na cena, mas a mensagem é passada a seguir, sub-repticiamente. São dois tempos: primeiro a arte imita a vida, para que depois, mensagem posta, a vida possa imitar a arte.

O que de fato acontece. Uma outra novela passou uma cena de estupro: a mulher estava bêbada, vulnerável, e o homem a estuprou. Na cena seguinte, que é o que nos interessa, a mulher é advertida por sua imprudência, e o homem não é incriminado. Talvez seja preciso lembrar: estupro de vulnerável é crime, art. 217-A do Código Penal. Estar vulnerável não é crime, e embora o bom-senso recomende prudência, a lei não obriga, nem ninguém é invulnerável o tempo inteiro. Ninguém.

Vai daí que um tal reality show mostra uma cena imitando a novela. Esperamos, ainda, a cena seguinte. Ou as cenas, porque a primeira já se viu: o amor é lindo, poetou o carismático apresentador. A lei não se aplica sozinha: caso o Ministério Público não se mexa, ficaremos com um estupro impune, cometido em cadeia nacional, e uma mensagem clara: o consentimento da vítima não conta, basta o consentimento da televisão, sob concessão estatal.

A lei não se aplica sozinha, e não vale o papel em que foi escrita se não for aplicada. Já não fará mais sentido falar em "estupro de vulnerável", como diz o Código. Porque seremos todos, de saída, vulneráveis. Consentindo ou não.

Os Piratas do Tietê e os corsários do PSDB

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Não é só o PSDB, claro: no âmbito federal, o ano começa com vários reveses: a exigência de cadastramento das gestantes para o auxílio maternidade, a transformação das áreas de preservação de florestas em capital especulativo, o veto a dois artigos essenciais das diretrizes para a Política de Mobilidade Urbana. Sem falar em Belo Monte e nos conflitos rurais no Pará e no Mato Grosso do Sul, que me fazem pensar nas disputas territoriais na Palestina de uma maneira bem diferente.

Mas é em São Paulo, nosso querido e odiado Estado, controlado pelo PSDB há mais de duas décadas, que a coisa fica feia. O projeto de revitalização do Centro revela-se, com cada vez mais hipocrisia, não se tratar de nada além de um projeto imobiliário (leia-se: o oposto de um projeto de moradia). Nos últimos meses, tivemos uma escalada nas reintegrações de posse e lojistas instalados na região da Luz se vêem ameaçados de sofrerem desapropriações injustificadas.

anonimo_cracolandia anda.jpg

É preciso lembrar desse histórico, que é o contexto de fundo para as ações mais recentes, coordenadas ou nem tanto, entre a Prefeitura e o Governo do Estado. O prefeito fez um uso oportunista de um incêndio na favela do Moinho, que fica numa região privilegiada de São Paulo, no Bom Retiro, perto da Luz, para pôr em prática um plano antigo de remover as 700 famílias da região, que iniciaram a ocupação da área há já quase 30 anos. Se será ou não bem sucedido, parece que dependerá mais de sorte que de habilidade política. A intenção, porém, está declarada desde 2005 e parece que não é direito da população mais pobre ganhar a vida numa região central.

Por essa mesma razão, a Polícia Militar começou uma operação com o objetivo declarado de "levar dor e sofrimento" à população de viciados da chamada cracolândia (um território supostamente bem demarcado, mas que na verdade se desloca entre os Campos Elíseos e a Luz). Em outras cidades do Estado o movimento é o mesmo. O resultado tem sido desastroso, e promete piorar. Porque começaram a se espalhar por outras regiões da cidade, a Polícia os tem abordado em qualquer lugar, fazendo uso de armamento pesado (ontem à tarde um policial carregava uma metralhadora numa dessas abordagens numa rua paralela à Brig. Luis Antônio). Tenho visto, perto de casa, aumentar gradativamente o número de moradores de rua, e a esses se somaram agora os viciados, que parecem não morar, mas se arrastar indistintamente. O medo e a raiva que essas pessoas exprimem se tornou patente. O outro nome disso é desespero, e como eu já trabalhei com viciados em crack, sei que o motivo desse desespero não é o crack, infelizmente. Talvez a solução fosse mais simples.

Mas eu não estou dizendo nada, apenas aprendendo a ler o que está aí. Quem está dizendo, mais uma vez, é o lindo do Laerte Coutinho, que casualmente postou essa tirinha antiga no seu blog, ontem. Ele diz que a "encontrou". Minha leitura, de resto óbvia, é que ele se deu conta de que já havia feito a tira exata para avaliar a situação atual, e foi "procurá-la". Clique para ampliar, como sempre.

Laerte_piratasSP450.jpg

Alguém disse, e só agora eu entendo: a periferia está em toda parte.

PS.: vi hoje um folheto dobrável com publicidade sobre um lançamento imobiliário na Av. São João. O anúncio dizia: "O Centro é para todos. O estilo é para você". Nem precisavam ser tão explícitos, né? Mas foram.

Mais blogues

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Nenhum blog existe sozinho. Quando não existia o google (vc se lembra? pergunte ao São Tomás de Aquino: nada é eterno, nem incorrompível, a não ser Deus), as pessoas entravam na internet digitando na barra de endereços um endereço.

Sim, digitando. Vc se lembra como se faz isso? Enquanto uns dizem que ninguém escreve mais à mão, outros dizem que logo ninguém mais vai digitar, mas apontar com um dedo numa tela. De minha parte, vcs sabem, acho tudo isso uma bobagem. Mas vamos tentar não nos esquecer.

Então, naquela época a pessoa digitava o endereço na barra de endereços, e daí ia saltando, de um lugar pro outro, através dos links (naquela época ainda dizíamos, hyperlinks). Cada usuário de internet era uma pessoa diferente, porque saltava dentro de um universo próximo, mais ou menos como se você tivesse um bairro dentro da internet.

Este costume não se perdeu, e os blogueiros continuam se esforçando em mantê-lo. Um pouco por bairrismo, um pouco por sobrevivência, um pouco assim como se gravava uma fita cassete com as músicas que vc mais gostava pra um amigo. E o nome pirataria ainda estava ligado a filmes de época.

Seguindo este costume, fiz uma página no blog com os endereços mais importantes do meu bairro. Ainda está só começando, vou aos poucos acrescentando nomes e mais nomes. Também aceito sugestões, e pessoas desinibidas que se convidam também são benvindas. Vai lá!

Anamorfismo na rua

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Kurt Wenner - dies irae.jpg

Isso também é conhecido como Chalk Art, 3D Street Art, Pavement Art ou quase qualquer coisa assim:
http://www.squidoo.com/chalk-art
http://www.metanamorph.com/
http://www.kurtwenner.com/

Recomendação do meu pai, que ficou revoltado com a última Bienal, e com razão. Pra que cortar uma vaca ao meio, se você pode pintar na calçada e fazer parecer que cortou-a ao meio? O ultrarrealismo é sintoma de uma sociedade decadente, mas ele estará redimido se apontar para um outro mundo no lugar. E já que estamos nisso, também recomendo a leitura da entrevista com Haruki Murakami. Ou essa imagem aí não faz pensar na frase do Eduardo Galeano, de que este mundo es una mierda, pero está embarazado de un otro mundo?

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